Papaya

Na fileira de projectos como Adorno, Lobster, Suchi Rokara, Jibóia ou Cangarra, Bráulio Amado, Óscar Silva e Ricardo Martins insistem gloriosamente em confundir quem os ouve e quem espera deles um apanhado de encaixes arrumadinhos e domáveis, de percepção consensual. 
É cada vez mais difícil encontrar essa fórmula dentro do contexto de onde eles saem. No niilismo rítmico da bateria do Ricardo que dispara síncopes hardcore numa cavalgada noise. Na ebulição melódica de eletricidade em notas que o Óscar arranca da sua guitarra, ou no ‘punk à moda de Albergaria’ que o Bráulio propõe para esta salada de frutas. No fundo é mesmo isso, quando pensamos que os selos não passam disso mesmo. Autocolantes que separam fraldas de pensos higiénicos em superfícies comerciais, quadrados personalizados para correspondência das finanças ou carimbos chapados de fácil compreensão para música a leste dessa rigidez. É por isso que é tão louvável ouvir os Papaya em tempo real e na sequência dos seus currículos. É música – portuguesa, sim – feita nos dias de hoje por malta que já percebeu por que linhas se cose e que tipo de bordados pretendem evitar na costura dos álbuns. É uma amizade a três que se traduziu em fusão de experiências compatíveis, não confinadas a uma “ocidental praia lusitana” e disponíveis para dilacerar pré-conceitos obsoletos. 
Talvez seja esse o desafio maior, para entender (ou não) o que é música portuguesa hoje em dia, sem cair no erro de premissas ultrapassadas, arrebatamentos geográficos e prisões artísticas. Tocar numa banda chamada Papaya, ouvir Lightning Bolt, trocar audio files por três capitais do mundo e tomar uma bica no Rossio.

 

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